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domingo, 29 de setembro de 2013

Mulher foi abusada sexualmente no trem

“Ele entrou no trem lotado, de costas e me puxou pra junto dele. Tive todas as partes do meu corpo tocadas”



Estava desabafando meu problema com uma amiga e fui presenteada com o seu site. Há tempos procuro um lugar onde possa colocar pra fora todo esse rancor que me persegue e aliviar meu coração. Só de ler as histórias em seu blog já me senti diferente, tem tanta gente com um peso maior nas costas que a gente se envergonha de carregar os nossos como se fossem os mais pesados do mundo. É difícil escrever pra você. Já relatei minha história pra muita gente, mas aqui falo na primeira pessoa, não como se estivesse contando a história de alguém, como acontece normalmente. 

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Eu costumava ser feliz. Apesar dos problemas familiares, eu costumava ser normal, ser espontânea, ser positiva. Sempre fui aquela pessoa que chega à festa e todo mundo sabe que chegou, que nunca dispensava um sorriso ou uma companhia....E nunca costumava ficar solteira. Sou extremamente visual nas minhas memórias, e como você vai perceber no meu relato, tenho muitas memórias fotográficas dos momentos que vivi. 

Em 2006 eu já namorava há quatro anos e era completamente apaixonada pelo meu namorado, apesar de viver uma relação doentia e desgastada. Em meados de abril daquele ano, sofri um acidente de ônibus. A motorista não viu outro ônibus parado no ponto e não desviou a tempo. Atravessei o vidro da frente do ônibus e sofri traumatismo craniano. É engraçado porque as pessoas acham que você apaga na hora, mas eu lembro inclusive do mundo girando antes de bater no vidro, e dos meus óculos atravessando a rua. Quando voltei pra casa, ainda de cama, questionei meu namorado o porquê ainda não ter me visitado. Ele disse que tinha horror de hospital, mas que também não poderia me ver aquele dia pois tinha futebol com os amigos e já havia pago a quadra, logo, não ia perder dinheiro. Pra mim aquilo foi o fim. Não bastasse isso, ele apareceu depois do jogo, com o time todo em casa, e não subiu pra ver como eu estava. A relação começou a decair e terminei duas semanas depois. Passamos três anos entre declarações e sofrimentos. 

Em 2009 foi diferente. Estava com síndrome do pânico há algum tempo, ainda por causa do acidente: em alguns períodos me recuperava e levava uma vida normal, em outros me trancava em casa e não conseguia sair no quintal. Passei seis meses em casa, no auge da crise neste ano. Em meados de fevereiro reencontrei um amor de adolescência, que eu acreditava ser a salvação dos meus problemas. 

Começamos a namorar em abril, depois de declarações devotas feitas por ele. Recuperei aos poucos a vontade de sair e aos poucos a vida foi voltando ao normal. Precisava de um emprego, de uma vida como a de todo mundo. Em junho consegui! Estava radiante, a empresa era boa, e eu tinha todas as oportunidades de crescimento que eu precisava pra começar a vida que eu buscava; apesar de não ser na área que eu tinha estudado era o que eu achava que podia fazer, já que estava afastada do mercado a tanto tempo. Mal sabia eu que o inferno estava só começando. 

Na quinta-feira da minha primeira semana no trabalho fiz tudo como sempre. Estava frio, e eu fui trabalhar com um sobretudo. Parte do meu trajeto era feito de trem. Na porta da estação fui abordada por um homem de social, com o terno nos braços, me fazendo uma pergunta. Eu estava com o fone de ouvido e, quando tirei pra perguntar o que ele queria, ele me abraçou com o braço do terno e encostou um objeto na minha cintura, pedindo pra eu me calar e entrar com ele na estação. Imaginei que fosse um sequestro relâmpago, um assalto, qualquer coisa do gênero, já que isso virou ação corriqueira em São Paulo. Até o momento em que paguei o meu trem e me pediu pra passar. Aquilo não era um assalto. Assaltantes não pagam a passagem de quem estão assaltando. Às 18h as estações estão lotadas. Enquanto o trem não chegava ouvi todas as coisas mais nojentas que jamais pensei ouvir de alguém (hoje me pergunto como existem pessoas que tem fantasias sexuais com esse tipo de coisa). 


Ele entrou no trem lotado, de costas e me puxou pra junto dele, me deixando encostada na porta. Foram os 10 minutos mais agonizantes da minha vida. Nem atravessar o vidro do ônibus foi tão assustador. Tive todas as partes do meu corpo tocadas enquanto continuava ouvindo os absurdos que ele falava, e não sei dizer o tamanho do vazio que dá se sentir exprimida por milhões de pessoas dentro daquele vagão e nenhuma perceber a loucura que você está vivendo. A estação seguinte era exatamente a que com maior fluxo, e fui jogada pra fora do trem, conseguindo me soltar do filho de uma puta. 

Quando percebi que ele não me abraçava mais, corri até o final da estação, tentando fugir. Ele correu atrás. Quando ouvi o sinal de fechamento da porta corri pra dentro do vagão, rezando pra ele não entrar junto. Ele não conseguiu entrar, mas ficou na porta me encarando e rindo. Não sei como cheguei em casa. Sei que encostei na porta do outro lado e cai sentada na estação quando a porta abriu. Tomei cinco banhos aquele dia. O nojo e a sujeira não iam embora do meu corpo, e continuaram lá por algum tempo. 

Fiquei um dia afastada do trabalho, porque tinha que fazer o boletim de ocorrência e todas as burocracias mais. Ironicamente fiquei noiva no dia seguinte. E solteira três meses depois. Meu namorado nunca mais tocou em mim. Nem de mãos dadas eu conseguia sair. 

Não bastasse todo o fardo emocional que esse canalha me presenteou, volto ao escritório na segunda e começo a receber e-mails, ligações e convites de almoço executivo de dois chefes da empresa. Eu não sabia mais como reagir. Minha família cobrava que eu continuasse no emprego, o salário era bom e pagava todas as regalias que eu sempre tive. E eu não conseguia mais me abrir. Não conseguia contar em casa o porquê queria sair, tinha vergonha, afinal, na minha cabeça, a culpa era minha. Eu era magra, bonita, chamava atenção. Fui eu que causei todo esse mal. 

Engordei 35 kg em três anos. Não saí da empresa. E quanto mais eu engordava mais os convites vinham, mais a nojeira continuava. É fato. Eu só fui violentada fisicamente no trem, por um estranho. Mas vivi três anos de violência psicológica no trabalho. Não aceitei nenhuma promoção, nem cresci na empresa como pretendia. Tirei tanta licença médica que parecia uma doente crônica. E com as licenças o assédio moral do resto dos funcionários crescia também. E eu continuava calada. Não tinha coragem de falar, era como se eu fosse viver tudo de novo. E eu não queria. 

Foram três anos de aflição que eu estou me libertando neste e-mail. Em fevereiro entrei em licença pelo INSS e não retornei. Contei pra minha família, pra minha psicóloga e decidi fazer por mim. Perdi 20 dos 35 quilos que engordei. Voltei a olhar no espelho. Depois de três anos sem deixar ninguém encostar em mim, estou namorando um cara maravilhoso que entende todos os meus medos e me ajuda a ser melhor. Voltei a ter relações. Mas o vazio continuava ali. Eu precisava arrancar isso. E esta semana tomei coragem. Liguei pro dono da empresa e pedi as contas. Me desvencilhei do meu maior pesadelo. Da empresa e dos seus cretinos, do caminho diário pra casa relembrando aquele filho da puta. 

Continuo com medo. Encontrei alguém capaz de me ajudar a enfrentar tudo isso, mas até que ponto ele vai ser forte o suficiente pra não cair fora feito meu ex? Tenho medo que o peso da minha história me faça perder alguém que tem me dado forças pra me recuperar, que me reensinou a amar. Mais que isso: me ensinou a me deixar ser amada, depois de tantos relacionamentos falidos e traumas. 

Sei que foi longo e peço desculpas. Mas você está me libertando de uma dor que não me deixa viver desde 2009. E sou imensamente grata por esse tempo que perdeu lendo essas linhas! 

Abraços com carinho.
 
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